SAFRAS (30) A edição de julho do Boletim de Centro de Inteligência do
Milho CIMilho, da Embrapa Milho e Sorgo, de Sete Lagoas(MG), divulgada hoje,
traz como matéria de capa artigo assinado pelos pesquisadores João Carlos Garcia
e Jason de Oliveira Duarte, em que fazem uma avaliação do uso de transgênicos
na produção brasileira do cereal.
Conforme o artigo, na safra de verão, cerca de 35% das sementes adquiridas
de milho foram de cultivares com eventos transgênicos, enquanto na safrinha,
este percentual atingiu cerca de 42%. Em alguns dos principais estados
produtores, as cultivares transgênicas ultrapassaram as convencionais neste
segundo ano de liberação daqueles materiais.
Abaixo, a íntegra do artigo, veiculado hoje (30) no Informe CIMilho.
A tecnologia OGM no mercado do milho no Brasil
O fim do princípio
João Carlos Garcia e Jason de Oliveira Duarte
Pesquisadores da área de economia agrícola da Embrapa Milho e Sorgo
A introdução de organismos geneticamente modificados na agricultura
representa o mais novo patamar tecnológico que, na medida em que se consolida,
provoca a reorganização dos sistemas de produção e de transformação dos produtos
oriundos do setor agrícola, passando a influenciar o agronegócio que, por sua
vez, se adapta às novidades.
Com a colheita da safrinha de 2010, está sendo finalizado no Brasil o
plantio da primeira safra em que esta tecnologia tem condições de ser utilizada
de forma significativa pelos produtores de milho. As 87 cultivares de milho com
resistência a insetos derivada de eventos transgênicos garantiram, ao lado de
225 outras cultivares convencionais, a liberdade de escolha dos agricultores e
uma ampla disponibilidade de sementes com esta tecnologia incorporada.
Os dados mais confiáveis sobre a quantidade comercializada de sementes de
milho no Brasil são compilados pela APPS (Associação Paulista dos Produtores de
Sementes e Mudas), a partir de informações fornecidas pelas principais empresas
produtoras de sementes de milho. Deve-se ressaltar que estas informações
referem-se a sementes de milho comercializadas. Existe no Brasil uma ampla área
de milho, aproximadamente 15% da área cultivada, segundo a Abrasem (Associação
Brasileira de Sementes e Mudas), que ainda é plantada com sementes salvas pelos
agricultores (cultivares tradicionais, sementes de segunda geração etc) ou com
sementes provenientes de programas conduzidos por entidades governamentais ou
não governamentais (troca-troca, distribuição direta), situações que podem não
ser completamente captadas por estas informações.
A quantidade de sementes transgênicas adquiridas para uso nas duas
principais épocas de plantio de milho no Brasil (verão e safrinha) permite
algumas análises sobre a aceitação desta tecnologia em diferentes condições e
inferências sobre o seu desenvolvimento entre produtores de milho com diferentes
objetivos.
A primeira conclusão que se observa é que realmente verificou-se um início
bastante promissor em termos de adoção desta tecnologia entre os agricultores
que adquirem sementes de milho no Brasil. Na safra de verão, cerca de 35% das
sementes adquiridas de milho foram de cultivares com eventos transgênicos e, na
safrinha, este percentual atingiu cerca de 42%. Em alguns dos principais estados
produtores, as cultivares transgênicas ultrapassaram as convencionais já neste
segundo ano de liberação daqueles materiais. Podem ser citados os estados de São
Paulo e Bahia na safra de verão e São Paulo e Paraná, na safrinha.
Outra característica que se pode extrair dos dados é a concentração dos
transgênicos de milho no mercado de sementes de milho híbrido simples. Em sua
esmagadora maioria, as cultivares com eventos transgênicos eram deste tipo de
semente, sendo que apenas uma quantidade reduzida de sementes de híbridos
triplos foi comercializada, não se verificando a oferta nem de híbridos duplos
nem de variedades transgênicas.
Embora os híbridos simples ocupem uma parcela cada vez maior no mercado de
sementes no Brasil (nos EUA e Argentina os híbridos simples dominam
praticamente todo o mercado), ainda existe um percentual grande de área plantada
com híbridos duplos, triplos e com variedades, o que, de certa forma,
estabelece um teto para a penetração dos transgênicos. Em âmbito nacional, os
híbridos triplos ocuparam, em 2010, cerca de 60% da área plantada com milho no
verão e de aproximadamente 65% na safrinha. Entretanto, este percentual varia
muito, mesmo entre os principais estados produtores. No verão, o percentual da
área plantada com híbridos simples foi de 95% na Bahia (região de Barreiras);
75% em Goiás; 74% em São Paulo; 71% no Paraná; 59% em Minas Gerais; 51% em Santa
Catarina e 46% no Rio Grande do Sul. Na safrinha, os percentuais foram de: 88%
em Goiás; 70% no Paraná; 65% em São Paulo; 65% em Mato Grosso e 57% no estado de
Mato Grosso do Sul. Somente esta dispersão ilustra a forma como tal tecnologia
poderá se disseminar entre os agricultores de diferentes regiões. Entretanto,
caso a utilização de híbridos simples em determinadas regiões seja relativamente
reduzida e se constitua um empecilho para o crescimento das cultivares com
eventos transgênicos, a opção pela disponibilização de híbridos triplos
transgênicos está aparentemente sendo exercitada pelas empresas.
No verão, nos estados do RS e SC, onde os híbridos simples têm menor
penetração, nota-se uma maior participação dos híbridos triplos no total dos
transgênicos, atingindo um percentual de 12% (nos outros estados esta
participação se situou abaixo dos 10%). Na safrinha, época de maior risco
climático, de lavouras implantadas com menor investimento e de sementes
geralmente mais baratas, este percentual dos triplos sobe para 30% em São Paulo;
26% em Mato Grosso do Sul e 15% nos estados do Paraná e de Mato Grosso. Isto
pode indicar que a opção de incorporar eventos transgênicos em híbridos triplos
existe e pode ser exercitada na medida em que o mercado dos híbridos simples
seja ocupado, ou que seja necessário oferecer uma opção de menor custo.
É claro que o custo financeiro de adquirir sementes transgênicas tem seu
peso na decisão dos agricultores. Porém, outro aspecto importante refere-se à
gravidade da infestação e dos danos causados por insetos controláveis pelos
eventos transgênicos. Em regiões onde estes danos são menos relevantes em
relação ao custo da tecnologia transgênica (nesta situação incluem-se também
aquelas regiões ou épocas de plantio com menor potencial de produção) ou os
insetos-praga são passíveis de serem controlados a um custo relativamente baixo,
a difusão das cultivares com características transgênicas pode apresentar menor
dinamismo.
Uma forma de verificar esta situação é quantificar nos dados da APPS a
percentagem de sementes de híbridos simples (como forma de homogeneizar o
ambiente tecnológico em uso pelos agricultores) que apresentam eventos
transgênicos, comercializadas em cada estado. No verão, o resultado também
varia: 66% em São Paulo; 60% na Bahia (região de Barreiras) e Goiás; 56% em
Minas Gerais; 50% no Paraná; e ao redor de 45% no RS e SC. Na safrinha, estes
percentuais também variam: 74% em São Paulo e no Paraná; 32% em Goiás; 49% em
Mato Grosso e 46% em Mato Grosso do Sul. Nota-se que existe um diferencial entre
agricultores de mesmo patamar tecnológico com relação ao uso dos transgênicos.
Isto, inclusive, indica a conjunção de forças que atuam em diferentes sentidos,
como no caso da safrinha no Centro-Oeste, onde as condições climáticas atuariam
no sentido de justificar a adoção de cultivares transgênicas (pelas condições
favoráveis para o desenvolvimento de pragas), ao mesmo tempo em que o menor
potencial de produção das lavouras nesta época e a crise de preços do milho na
região tornam o acréscimo do preço das sementes transgênicas em relação às
convencionais menos interessante, em termos econômicos.
Em resumo, três aspectos influenciarão o desenvolvimento futuro desta
tecnologia no Brasil (e mesmo em diferentes regiões):
a) o prejuízo potencial causado pelos insetos-praga passíveis de serem
controlados com o uso de cultivares transgênicas (isto envolve o potencial de
produção das lavouras e a intensidade normal de ataque das pragas na região);
b) o preço do milho no mercado (que, combinado com o item a, conduz ao prejuízo
financeiro causado pelo ataque das pragas); e
c) o diferencial de custo entre as cultivares transgênicas e convencionais (pode
ser mais vantajoso adquirir uma semente de híbrido simples convencional com
maior potencial de produção do que adquirir uma semente de híbrido triplo
transgênico com o preço incrementado pelo diferencial do custo do evento
transgênico). Este último aspecto está sob o controle das empresas licenciadoras
dos eventos transgênicos e já se verificou, na safrinha, uma redução no
diferencial de preços entre sementes convencionais e transgênicas dos híbridos
triplos em relação ao cobrado no caso dos híbridos simples.
De qualquer forma, a difusão desta tecnologia no Brasil apresenta um
desempenho muito superior à verificada em outros países. No caso dos Estados
Unidos, este percentual ao redor de 30% somente foi alcançado seis anos após as
primeiras liberações e, na Argentina, tal patamar foi alcançado três anos após o
lançamento das cultivares de milho transgênicas.
(VA)
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